Quem já assistiu ao filme Matrix (1999) conseguiu perceber que nem tudo é o que realmente aparenta ser. No longa dirigido pelas irmãs Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves, a sociedade em que vivemos é representada apenas como uma ilusão da “verdadeira” realidade. Essa ficção nos deixa a dúvida se estamos realmente no controle de nossas vidas, ou se somos apenas peças sendo manipuladas em prol de um elemento ou interesse maior. De qualquer maneira, o pensamento de conhecermos tudo o que está em nossa volta é ilusório e não precisamos assistir Matrix para nos certificarmos disso. Basta acessarmos a Deep Web.

Mas o que é a Deep Web?

E se eu dissesse que o lugar onde você passa várias horas todos os dias é muito maior e mais complexo do que aparenta ser? A essa altura, você já deve estar se perguntando o porquê da citação sobre Matrix no inicio desse post. Bom, Matrix nada mais é do que a Common Web, a internet que todos os usuários comuns conhecem, com seus sites de notícia e entretenimento sendo mapeados pelos mecanismos de busca como Google, Yahoo e Bing. Dessa maneira, o oposto da Common Web é a pouco conhecida e temida Deep Web, onde anonimato e sigilo são alicerces para troca de conteúdos.

Deep Web significa, traduzindo do inglês literal, “Internet Profunda”, podendo ser conhecida também como Undernet ou Darknet. Esse definição surgiu pelo fato de todo conteúdo disponível no interior dessa rede não ser de fácil acesso para a maioria dos internautas, além dos produtores desses conteúdos optarem por manter o seu anonimato através de softwares que dificultam a sua identificação.

O que tem lá?

Inicialmente, vamos analisar a diferença de tamanho entre as duas redes. Por estar longe da vigilância pública, a Deep Web é cerca de 500 vezes maior que a Common Web, tornando-se um terreno fértil para atividades ilegais e pavorosas. Entretanto, nem tudo pode ser considerado maldade. A origem e proposta da Deep Web são legítimas, e seu primeiro objetivo era proporcionar um ambiente seguro para compartilhamento de dados entre usuários específicos. Afinal, nem todo material deve ser acessado por qualquer usuário.

Por tratar-se de um lugar gigante, a Deep Web é imaginada como um grande oceano divido por camadas. Quanto mais fundo um usuário estiver, mais dificuldade ele teve para chegar até lá, devido as técnicas de criptografia utilizadas para bloquear o acesso aos conteúdos da camada. A partir disso, alguns usuários mais habilidosos acabam desenvolvendo sistemas de busca que tentam derrubar sites e portais em áreas cada vez mais inacessíveis, até que o mesmo chegue a um local denominado Marianas Web.

Como eu acesso a Deep Web?

Não existe uma método padrão para acessarmos a Deep Web, mas o mais famoso e ainda utilizado é o acesso via Tor Browser. Tor é um acrônimo para The Onion Router (O Roteador de Cebola), e trata-se de um sistema de navegação (semelhante ao Google Chrome ou Mozilla Firefox) capaz de proteger as informações dos usuários quando elas chegam a internet. Graças ao seu mecanismo de transmissão de dados baseado em múltiplas máquinas, o Tor consegue fazer com que o endereço IP do usuário seja alterado a medida que o mesmo solicite acesso em uma página, garantido seu anonimato durante a navegação.

Como já foi mencionado anteriormente, na Deep Web as páginas não são mapeadas por mecanismos de busca, fazendo com que o usuário tenha que recorrer aos clássicos diretórios de sites, que eram muito comuns na década de 90 até do Google aparecer. Muitas páginas de conteúdos da Deep Web, ao contrário da Common Web”, não são construídas em um formato HTML. Além disso, os links das páginas são compostos por caracteres randômicos seguidos da terminação .onion.

Então seguindo nossa analogia a Matrix, podemos classificar o Tor Browser como a pílula vermelha que você escolhe se deseja desfrutar da verdadeira realidade da internet. Caso não queira se aventurar em águas profundas, a pílula azul conhecida como Google também é uma opção.

O lado negro da força

Não é porque vamos escolher viver a realidade que ela será mais “bonita” do que a ilusão não é mesmo? Em Matrix, a terra estava dominada por sentinelas com inteligência sobre-humana e cabia aos últimos sobreviventes humanos derrotarem essa ameaça. Na Deep Web não é muito diferente, e não é raro encontrarmos algumas atrocidades. A Silk Road (Rota da Seda), por exemplo, é somente o maior mercado negro on-line da Deep Web, operando como um serviço encoberto pela rede Tor. O site foi lançado em fevereiro de 2011, sendo fechado e reaberto algumas vezes desde então. Os produtos comercializados nesse e-commerce são os mais variados possíveis, e podemos encontrar desde drogas ilícitas até assassinos de aluguel.

Além do comércio nada agradável, a Deep Web esconde segredos bem mais complexos. Se formos um pouco mais afundo em suas camadas podemos nos deparar com inúmeros documentos e teorias da conspiração, que vão de livros escritos por Nikola Tesla que ensinam métodos incríveis para controlar a energia elétrica à utilização da computação quântica por grandes governos e corporações.

O mistério que se esconde por traz das camadas da Deep Web é algo que sempre será sustentado pelos boatos e suposições de usuários anônimos, ou seja, não são dados oficiais em que se pode confiar. O que uma grande maioria desses usuários afirma é que a partir da terceira camada da Deep Web o grau de criptografia é tão avançado que só quem possui conhecimentos muito específicos em física ou engenharia é capaz de acessar. Nesse parte do “oceano digital”, acredita-se que existam diversos conflitos entre hackers e crackers que lutam por poder, além de grandes empresas barganhando o rumo que a globalização vai tomar. Um pouco mais afundo… chegamos a Marianas Web (nome que faz referência a Fossa das Marianas, local mais profundo do oceano), simplesmente a parte mais obscura e secreta da Deep Web, sendo considerada a última camada. A partir daqui fica a seu critério querer acreditar se a Marianas Web realmente existe e mais do que isso, imaginar o que está escondido por traz de todos esses boatos.

A Deep Web é o que precisamos?

Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, acessar a Deep Web não é ilegal. Motivados pela privacidade que a rede pode proporcionar, vários usuários recorrem à “internet invisível” para tratar de assuntos sigilosos e compartilhar arquivos que jamais poderiam vir a luz do dia, ou melhor, a luz da Common Web.

No entanto, a condição de anonimato dessa gigantesca parcela da internet também acaba levando ao surgimento de uma série de atividades ilegais que a maioria das pessoas não ficaria confortável em se deparar. A partir disso, talvez a Deep Web não seja o modelo de rede que precisamos, mas sim o modelo que deve ser analisado e melhorado para futuras implementações. Até lá, devemos nos contentar com nossa nem tão boa e velha Matrix chamada Commom Web.